Economia circular: as vantagens na produção e no consumo

E se lhe dissermos que cada Europeu consome, em média, 14 toneladas de matérias-primas e produz cerca de 5 toneladas de desperdícios por ano?

Só em 2014 a União Europeia produziu cerca de 2,5 mil milhões de toneladas de resíduos. Estes dados são avançados pelo Parlamento Europeu que mostra que a área da Construção é responsável por 34% desta produção de resíduos e 8% é o valor indicado para as residências dos cidadãos.

No que toca aos resíduos urbanos, Portugal produziu 453kg/capita nesse mesmo ano. Cerca de 30% dos resíduos foram reciclados ou decompostos através da compostagem e 49% foi depositado em aterros.

Para além do descarte de resíduos, existe o problema da extração de matérias-primas: em 2010 foram extraídos 65 mil milhões de toneladas de recursos do nosso planeta, segundo dados do Jornal de Negócios.

Perante estes números, torna-se fulcral apostar em formas mais sustentáveis de dar um destino aos resíduos urbanos. A economia circular é um modelo que pode resolver uma grande parte deste problema. Mas o que é a economia circular? E quais as vantagens deste modelo para o problema atual da produção de resíduos? Conheça tudo neste artigo.

O que é a economia circular?

A economia circular, de acordo com o Parlamento Europeu, “é um modelo de produção e de consumo que envolve a partilha, a reutilização, a reparação e a reciclagem de materiais e produtos existentes, alargando o ciclo de vida dos mesmos.”. Ou seja, o objetivo reduzir o desperdício tentando, sempre que possível, manter os materiais de um produto, que chegou ao seu fim de vida, na economia para que possam ser reutilizados.

De forma sucinta, este é o modelo da economia reorganizado que tem por base a coordenação dos sistemas de produção e de consumo num circuito fechado.

Modelo economia circular
Imagem 1 – Modelo exemplo da economia circular

Obsolescência programada

Por oposição à Economia circular existe a obsolescência programada que é, de forma resumida, “quando um fabricante desenvolve defeitos num produto para que este se torne obsoleto numa determinada data ou após um determinado número de utilizações”.

De quanto em quanto tempo sente que tem de mudar de smartphone? Ou de vários eletrodomésticos? Um estudo realizado pelo Parlamento Europeu mostra-nos o tempo médio de vida esperado por determinado produto:

Tabela que indica o tempo média de vida de um produto
Imagem 2 – Tabela que demonstra o tempo médio de vida esperado de um produto

Esta obsolescência programada contribui para o modelo linear de economia que se baseia na extração, produção, uso e descarte dos produtos. Este modelo causa uma crescente procura de recursos naturais cuja extração e utilização aumenta o consumo de energia e, por conseguinte, a emissão de gases com impacto negativo no ambiente. Na imagem 2 é possível ter uma maior perceção das diferentes entre o modelo de economia linear e o de economia circular.

Gráfico economia linear vs circular
Imagem 3 – Modelo economia linear vc economia circular

Aumentar o ciclo de vida de um produto

O mesmo estudo defende o aumento do tempo de vida dos produtos, num contexto de economia circular, e avalia este impacto na sociedade, economia e ambiente. Porém, é defendido que uma vida mais longa para os produtos não deve ser considerado sinónimo de haver capacidade de valorização das matérias-primas.

Quais as vantagens desta ação?

  1. Uso sustentável de materiais: numa vida mais longa do produto devem ser considerados os materiais usados e de que forma o seu valor por ser retido. Por exemplo, através da reciclagem;
  2. Conhecimento e habilidades duradouras para manter, reparar e restaurar os produtos;
  3. Utilidade prolongada
  4. Transações contínuas: têm como objetivo fazer com que as empresas aumentem e fortaleçam os relacionamentos que têm com os clientes tendo por base uma economia colaborativa.

Este processo é uma parte do impacto que pode aumentar a adesão a uma maior circularidade.

O Novo Plano de Ação para a Economia Circular da Comissão Europeia

Como forma de acelerar a transição para a economia circular na União Europeia, em 2015 a Comissão Europeia delineou um plano de ação com 54 medidas “para «fechar» o ciclo de vida dos produtos, do fabrico e consumo à gestão dos resíduos e ao mercado das matérias-primas secundárias, e identifica cinco setores prioritários para acelerar a transição ao longo das respetivas cadeias de valor (plásticos, resíduos alimentares, matérias-primas essenciais, construção e demolição, biomassa e materiais de base biológica).”

Este ano, a Comissão Europeia lançou um novo Plano de Ação para a Economia Circular – um dos alicerces do Pacto Ecológico Europeu – que, com base nos trabalhos que têm sido realizados desde 2015, se centra nas fases da conceção e da produção de uma economia circular para garantir que os recursos se mantêm na economia o maior tempo possível. Este novo plano tem como objetivos:

  1. Promover o design de produtos sustentáveis como uma norma na União Europeia: produtos que sejam produzidos para terem um maior tempo de duração e que sejam facilmente reutilizáveis e recicláveis. Isto permite uma maior restrição à obsolescência;
  2. Dar maior capacidade aos consumidores no acesso à informação sobre os produtos
  3. Medidas concretas em setores que utilizam grande parte dos recursos e que têm potencial para uma maior circularidade
  4. Garantir a diminuição dos resíduos produzidos

A economia circular também tem princípios!

De acordo com a Circular Economy Portugal, a economia circular tem 3 princípios:

  • Regeneração do capital natural: promove as atividades que interferem o menos possível no ecossistema e defende um crescimento sustentável da economia;
  • Fechar os ciclos: para evitar o desperdício;
  • Perspetiva sistémica: a economia é um sistema no qual interagem vários atores e que está integrado noutros sistemas maiores. Por isso, a mudança do modelo linear para o circular deve ter em conta uma transformação integrada e articulada de todos os elementos.

Vantagens da economia circular

A economia circular foca-se “na manutenção do valor de produtos e materiais durante o maior período de tempo possível no ciclo económico.” e tem várias vantagens:

  • A favor do ambiente: conservação dos recursos do planeta, diminuição dos resíduos produzidos e das alterações climáticas;
  • Aumento da competitividade e inovação;
  • Relações mais fortes com os clientes;
  • Crescimento e emprego;
  • Produtos mais duradouros e também inovadores;
  • Maior segurança no aprovisionamento das matérias-primas.

Para além disto, a Comissão Europeia realça que medidas para a prevenção de resíduos e para a promoção da reutilização pode originar uma poupança de 600 mil milhões de euros e uma redução das emissões de gases com efeito de estufa em 2-4%.

A importância da economia circular para Portugal

Portugal é caraterizado por ter uma economia cumulativa de materiais, ou seja, extrai e importa mais matérias-primas do que exporta produto acabado, ficando com alguns materiais acumulados em stock.

Em 2017, foi lançado o Plano de Ação para a Economia Circular que tem como objetivo colocar Portugal na estrada da circularidade através da definição de prioridades, ações e metas a serem implementadas. A circularidade assume importância em Portugal:

  • Eficiência, produtividade e competitividade em setores com grande potencial: construção, agroalimentar, têxtil, agricultura e floresta;
  • De acordo com o estudo “Sinergias Circulares – Desafios para Portugal”, se os resíduos não urbanos eliminados em 2015 (1,1 milhões de toneladas) fossem transacionados entre empresas isto teria uma diminuição de consumos intermédios de 165 milhões de euros, na criação de 1300 postos de trabalho e na redução de 5 milhões de toneladas de extração doméstica de materiais;

Deste modo, “o potencial de circularidade de muitos setores em Portugal impõe que a I&I seja o alicerce e a prioridade para essa transição. Assim, importa apostar na I&I e desenvolver novas competências e conhecimento que incentivem, de forma sistémica e alargada, a transição da economia e da sociedade para a circularidade, competitividade e resiliência.”



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